VIVO COM OS ABUTRES - uma cartografia afetiva, de Gus Bozzetti

Exposição com apresentação da curadora Luisa Kiefer abre ao público em 13 de julho na Calafia Art Store. Mostra permanece em exposição até o dia 3 de agosto.

Para apresentar os 10 trabalhos da exposição Vivo com os Abutres, o artista Gus Bozzetti  valeu-se de uma foto antiga, um poema de despedida e uma história de família que se perdeu no tempo. Em sua nova exposição individual, o artista faz um resgate afetivo da história do seu avô paterno, falecido muito antes do seu nascimento.

Utilizando-se do desenho, o artista procura resgatar essa história e encontrar na memória, sua e da sua família, informações que o ajudem a descobrir quem foi esse homem que só existiu no seu imaginário desde a infância: "meu trabalho em Vivo com os Abutres é em cima disso, dessas lembranças meio borradas e dispersas que vou juntando para criar uma narrativa que faça sentido", diz Gus.

Vivo com os abutres é a terceira exposição individual da Calafia Art Store em 2019. A galeria de arte apresenta um acervo com cerca de 30 artistas voltado às linguagens urbanas e contemporâneas. Conta com desenhos, fotografias, pinturas, gravuras e ainda peças em técnicas híbridas, como bordados e colagens.

Serviço

Vivo com os Abutres - Uma cartografia afetiva
Exposição individual de Gus Bozzetti
Apresentação da curadora Luisa Kiefer.

Abertura
Sábado, 13 de julho de 2019, a partir das 11h.
Exposição de 13 de julho a 3 de agosto

Vivo com os abutres
Luísa Kiefer
Inverno, 2019

Uma suposta última foto de seu avô, com uma mensagem enigmática de despedida no verso, é o ponto central da pesquisa atual de Gus Bozzetti. Vivo com os abutres é o seu primeiro capítulo e, também, um convite para acompanharmos uma construção poética em desenvolvimento. Aqui, o artista apresenta ao público os elementos centrais de sua inquietação: a construção, ou a invenção, da verdade a partir da memória. Um caminho em processo, as primeiras peças de um complexo quebra-cabeças.

Na foto, que não vemos, Constantino Bozzetti, patriarca da família Bozzetti, que aportou em Rio Grande vindo da Itália, posa, com uma altivez tímida, em um banco da Praça Almirante Tamandaré. Conta a história que esta era uma prática recorrente, uma tentativa de reconquistar sua esposa, que o expulsou de casa por conta do alcoolismo, com fotos de Lambe-Lambes e poesias. O destino de Constantino, que um dia havia sido carpinteiro e desenhista, ninguém sabe ao certo, mas o que se especula é que ele teria vivido na praça até o final de seus dias e que essa foto seria o seu derradeiro adeus. Poucos da família conheceram ou conviveram com ele. Sua existência, entre os Bozzetti, passou a ser uma espécie de mito familiar que tudo embasa e justifica.

Vivo com os abutres é um mergulho nesse passado para encontrar, ou talvez criar, aquilo que constitui o presente de Gus. Nos desenhos, é possível identificar uma silhueta borrada, de onde irradia essa história cheia de lacunas e heranças, físicas e psíquicas. A ela misturam-se outras duas figuras: um autorretrato com feições cadavéricas – uma espécie de personificação da morte e um indício da melancolia presente na família – e um terceiro corpo masculino, que simboliza o encontro entre as gerações. Ao preto do nanquim somam-se as manchas de tinta aguadas, condensando com a matéria as camadas da passagem do tempo e dos relatos que foram se sobrepondo, configurando caminhos e possibilidades para compreender a vida e a influência desse avô desconhecido. Em um dos desenhos maiores, uma espécie de diagrama aponta para onde este trabalho deseja chegar: é, mais do que memória e afeto, uma investigação sobre a melancolia e a constituição do ser. A pesquisa que Gus começa aqui é sobre procurar, através do fazer poético, aquilo que o torna quem ele é.