A nudez masculina foi inspiração para muitos artistas ao longo da história da arte. Do clássico ateniense Torso Belvedere, ao David de Michelangelo, passando por Flandrin, Velázquez e Caravaggio até ícones da arte moderna como Andy Warhol. A observação do corpo masculino nu, nas tradicionais instituições de ensino artístico no ocidente foi parte da formação pictórica desde o século XVII. Nessa cronologia histórica, não é raro encontrarmos trabalhos que representam comportamentos que não se encaixam em padrões normativos de gênero. A beleza do nu masculino, seja glorificado pela guerra ou em comunhão com a natureza, a partir de abordagens que se aproximam de uma exaltação ou objetificação do próprio corpo, também foi marcada por um desejo homossexual.

No conjunto apresentado à Calafia, Caio Mascarello percorre parte de sua vivência como homem homossexual nas ruas de Porto Alegre, sua cidade natal. A arte e a rua tornam público um processo muito íntimo de descoberta do próprio corpo e do desejo pelo corpo de outros homens. Jake foi o primeiro homem por quem o artista se apaixonou, com quem trocou cartas e fotos e que inspirou os primeiros esboços feitos em um caderno de experimentos que depois se tornaria um livro de artista, com registros de estudos, desenhos à carvão, colagens, ilustrações. A sexualidade foi um tema que surgiu em segredo nas últimas páginas, enquanto a história de família ocupava as primeiras. O encontro desses dois mundos, separados por estigmas e convenções sociais, deu origem ao Jakezine, um fanzine homoerótico todo ilustrado que só seria finalizado em 2019, alguns anos mais tarde, com muita colaboração em um bem-sucedido financiamento coletivo.

Nesse meio tempo, o artista levou suas inquietações para as ruas e explorou novos suportes, como o lambe-lambe e adesivos. No espaço público, era possível estabelecer uma comunicação mais ampla que se atrevia e intervir no mobiliário urbano e provocava reações nos habitantes da cidade. A vivência da rua foi determinante no processo poético de Caio Mascarello, já que o enfrentamento dos medos e inseguranças com relação ao seu corpo, sua sexualidade vão além das relações de alteridade reproduzidas dentro da estrutura familiar. A rua também representa um lugar instável onde as afirmações de identidade acontecem num âmbito de disputas sociais complexo e muitas vezes violento.

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A retomada do Jackezine em 2019 se deu de forma ainda mais ousada: Caio propôs uma parceria com Paul, um dos mais conhecidos cabeleireiros da capital gaúcha entre artistas e simpatizantes das artes. Esse encontro tinha a ver com uma decisão afetiva, mas principalmente política, de resistir ao fluxo migratório que fez com que muitos artistas de sua geração deixassem o Rio Grande do Sul em busca de cidades como São Paulo. A proposta era transformar o salão em atelier e a experiência em uma residência artística para conhecer mais sobre sexualidade dos homens gays, discutir o uso de aplicativos de encontros, falar abertamente sobre sexo casual.

O sexo como questão e a extensão desse tema na prática de artistas homossexuais foi objeto de estudo do escritor inglês Emmanuel Cooper. A questão levantada trata da existência de uma tradição cultural ao mesmo tempo criada e constantemente modificada por esses artistas dentro do contexto social específico em vivem. Percorrendo os últimos séculos da história da arte ocidental, traz à tona essa tradição, frágil e em contínua gestação, que muito tem contribuído para o debate acerca de uma “identidade homossexual”, ou simplesmente a auto apresentação pública do artista e suas estratégias para aceitar seus temas.

No caso de Caio Mascarello, que é artista de rua, a cidade tem sido o suporte, os limites entre o público e o privado são constantemente interrogados à medida que ele explora as fronteiras da sua sexualidade. Ao buscar referências na cultura pop, da pornografia editorial dos anos 1990 até os aplicativos de encontros da atualidade, seu trabalho é questionador e está sempre pronto para provocar e destruir os alicerces patriarcais da sociedade brasileira. Especialmente nesse momento, em que o Brasil testemunha um processo de institucionalização do machismo e da homofobia, Jakezine é um manifesto artístico-político, atual e urgente.

Caroline Heera Fernandes

São Paulo, 18 de fevereiro de 2020.