Se pudesse, como você romperia os limites do que já conhece em direção a paisagens outras?

Érica Saraiva
Curadora

Que paisagens preenchem seu silêncio? A presente exposição trata do percurso poético trilhado pela pesquisadora e artista visual Ariane Oliveira. Graduada em Direito e Mestre em Poéticas Visuais (PPGAV/UFRGS), a artista apresenta uma série de trabalhos desenvolvidos entre 2016 e 2020, através dos quais é possível entrever o entrelaçar entre poética visual, pesquisa teórica e prática política.  

Enquanto o lançamento contíguo do livro nos convida a acompanhar o amadurecimento desse processo, os trabalhos expostos mostram mais do que parte do percurso de experimentação e aproximação das representações do corpo feminino em diferentes linguagens: remetem também aos trânsitos e paisagens que modificam nossa percepção do mundo, expandem o horizonte dos nossos desejos.   

Os registros fotográficos sinalizam a importância das experiências coletivas para as elaborações da artista, reivindicando um afeto coletivo contraposto a ideia da autonomia total do artista em relação ao contexto em que se insere. Porém, não se limitam a uma função documental, materializam camadas e sobreposições que vão além de uma tentativa de totalizar uma visão sobre o mundo. Em seus trabalhos, paisagem e corpo se unem afetivamente pela deriva poética em textos e imagens.  

Tal aspecto, mais evidente no livro, remete ao olhar em retrospecto para as experiências que constroem sua mirada como artista e escritora. De modo que demonstram a interdependência entre palavra e imagens na tentativa de dar forma a um imaginário que é também influenciado pelos processos coletivos de construção dos papéis atribuídos às mulheres. Enquanto o livro manifesta a vontade de transbordar os limites impostos pelas palavras – enquanto forma de expressão - aponta os limites da imagem - enquanto representação.  

Poesia enquanto modo de dar forma ao diálogo entre corpo, memória e imagens oníricas que surgem quando nos impelimos ao desconhecido. Transitar entre vestígios de memórias, caminhos e sonhos. Tornar a esquecer. Permitir um sentido novo como testemunho da perseverança em resistir. Apesar de. Seguir criando raízes profundas nas frestas. Uma deriva que inspira a compreender nossas paisagens e tempo internos, e reforça nossa recusa em habitar um lugar unívoco desafiando o achatamento das nossas práticas políticas e poéticas.